Encontrar outros adultos sobredotados: onde, como e o que o dificulta
Disseram-te que és sobredotada — alto potencial intelectual, um QI acima de 130 — e mesmo assim sentes-te muitas vezes um pouco de lado, à procura de gente que acompanhe a sério como pensas, o que te importa e o quanto sentes.
É disso que trata este guia: o que significa realmente o alto potencial, porque encontrar outras pessoas como tu muda algo, e como organizar ou participar nesses encontros. Vamos ver também o que os torna mais difíceis do que parecem. Se te interessa a atracção pela maneira de pensar de alguém, a sapiossexualidade é um texto irmão.

Compreender o alto potencial intelectual
O que é
O alto potencial intelectual descreve uma capacidade cognitiva claramente acima da faixa habitual. Avalia-se com um teste de QI que mede raciocínio, lógica, memória e conhecimentos adquiridos. Um resultado de 130 ou mais, numa escala em que 100 é a média, é o limiar que costuma usar-se.
Há testes para cada idade: WPPSI-IV para crianças pequenas, WISC-V para crianças e adolescentes, WAIS-IV para adultos. Importa dizê-lo: a sobredotação não é uma patologia nem uma perturbação. É uma diferença, e traz tanto vantagens como dificuldades.
A partir de que QI se fala de sobredotação?
O limiar usado na prática clínica é um QI de 130, dois desvios-padrão acima da média, o que coloca cerca de 2,3 % da população acima. É um limiar, não uma média — as pessoas em causa estão, por construção, acima — e não é uma definição da OMS: a OMS não fixa nenhum limiar de sobredotação, ao contrário do que muito se repete.
O que costuma vir com ela
As pessoas sobredotadas partilham muitas vezes alguns traços, cognitivos e emocionais:
- Um pensamento em árvore, com muitas associações a ramificar ao mesmo tempo e bastante criatividade.
- Um funcionamento neuro-atípico: actividade cerebral intensa, mais ligação entre hemisférios, sensibilidade aguda aos estímulos sensoriais.
- Uma hipersensibilidade emocional e sensorial, que faz as emoções e o ambiente chegarem com mais força.
- Uma memória pouco comum, que guarda e devolve com precisão informação variada.
- Uma forte independência de juízo, que empurra a pôr em causa o convencionado.
- Um pensamento intuitivo, que resolve problemas complexos por caminhos pouco convencionais.
- Uma empatia marcada, uma sensibilidade aguda ao que os outros precisam e sofrem, muitas vezes com empenho em causas sociais ou ambientais.
- Uma resiliência notável, que ajuda a ultrapassar obstáculos e a levantar-se depois de situações duras.
Essa constelação torna estas pessoas não só excepcionais como também vulneráveis, e é por isso que contam o reconhecimento, o estímulo e um acompanhamento adequado.
Porque contam os encontros entre pares
Experiência partilhada, compreensão mútua
As pessoas sobredotadas sentem-se muitas vezes sós e incompreendidas num ambiente que parece alheio à sua maneira de funcionar. Encontrar interlocutores que partilhem o seu nível de reflexão, a sua curiosidade, mas também o seu humor e a sua criatividade revela-se complicado. Deparam com incompreensão, com recusa, às vezes com inveja ou troça. Podem também acabar por desligar-se, desmotivar-se e ser vistas como fora de lugar.
Por isso os encontros contam. Permitem partilhar experiências, emoções, perguntas e dificuldades, e igualmente paixões, projectos e êxitos. Criam um sentimento de pertença que baixa a sensação de isolamento e de diferença. Favorecem o reconhecimento mútuo, a compreensão, o respeito, a aceitação e a estima por si. E oferecem a ocasião de se enriquecerem, inspirarem e sustentarem umas às outras.
O que fazem pelo bem-estar emocional
As pessoas sobredotadas são frequentemente hipersensíveis: sentem as emoções de forma mais intensa, mais funda e mais duradoura. São também muito empáticas, põem-se com facilidade no lugar do outro. Esses traços podem ser trunfos, e também fontes de stress, angústia, culpa, tristeza, raiva ou frustração.
Os benefícios destes encontros sobre o bem-estar emocional são reais. Falar dá espaço para pôr as emoções em palavras, exprimi-las, ordená-las e até acalmá-las. Traz escuta, amabilidade, compaixão, validação e reconhecimento. No fim permite sentir-se compreendida, sustentada, acompanhada e tranquilizada.
Organizar e participar em encontros
Encontrar grupos e comunidades
Para encontrar outras pessoas sobredotadas, funcionam tanto juntar-se a grupos existentes como criar novos. Algumas vias:
- Associações de adultos sobredotados. A Mensa existe internacionalmente, com o seu percurso de teste e os seus encontros locais; quase todos os países têm além disso associações nacionais, e basta procurar o nome do país junto de «associação adultos sobredotados».
- Plataformas e comunidades especializadas, a Mad2Moi entre elas, onde criar um perfil, conversar, participar em eventos e, porque não, conhecer alguém.
- Fóruns e blogues escritos por adultos sobredotados, muitas vezes a maneira mais rápida de reconhecer a própria experiência no relato de outra pessoa.
- Congressos e jornadas sobre alto potencial, que são também onde se conhecem os profissionais que trabalham o tema.
Organizar um encontro que resulte
Algumas coisas que fazem a diferença:
- Escolhe lugar e hora adequados: acessíveis, confortáveis, sossegados.
- Define com clareza o tema e o formato, escolhendo algo estimulante e suficientemente aberto para um grupo variado.
- Comunica-o como deve ser, pelos canais certos, com toda a informação prática.
- Conduz com atenção: recebe as pessoas, apresenta o tema, ajuda a conversa a arrancar, mantém o tom amável.
- Faz o balanço depois: recolhe o que as pessoas acharam, agradece a quem contribuiu, partilha os recursos e pensa no próximo.
O que torna estes encontros difíceis
A diferença dentro do próprio grupo
Conhecer outras pessoas sobredotadas não garante uma harmonia instantânea. O grupo é enormemente variado: personalidades, percursos, opiniões, interesses, necessidades e expectativas diferentes. Essas diferenças podem produzir desacordos, mal-entendidos, conflitos ou desilusões.
Atravessá-las passa por respeitar o que torna singular cada pessoa: não julgar, não impor a própria visão, não generalizar e não idealizar. Uma comunicação feita de amabilidade, escuta atenta, diálogo, disponibilidade para ser posta em causa e confiança mútua contam. Também conta procurar pontos comuns e construir sobre afinidades e complementaridades mais do que sobre a semelhança.
Obstáculos a comunicar e a ligar-se
Construir laços com outras pessoas sobredotadas esbarra também em dificuldades de comunicação. Costumam carregar estratégias de adaptação, de ocultação e de protecção que limitam o quanto podem exprimir-se de verdade.
Podem carregar também feridas emocionais, medos ou bloqueios que atrapalham o abrir-se e o comprometer-se. E podem sustentar expectativas altas ou ideais que produzem frustração e desilusão. Sobre como lidar com as expectativas nos encontros, dar o primeiro passo merece uma leitura, e o empoderamento feminino também, pela confiança que está por baixo.
Ultrapassá-lo passa por conhecer-se, aceitar-se, respeitar-se e dar-se valor. E também por permitir-se descontrair, divertir-se e ser imperfeita diante dos outros. Nada de um QI alto torna automática qualquer dessas coisas, e é justamente por isso que vale a pena encontrar quem o entende por dentro.
O que diz a comunidade